Atualmente, a obesidade é considerada o maior problema de saúde pública de todo o mundo. É assustador como esta doença tem avançado pelo planeta, trazendo graves conseqüências para a saúde. De acordo com as estatísticas alarmantes, 61% da população adulta têm excesso de peso e 30,4% dos americanos com mais de 20 anos são obesos, sendo que destes, 27,6% são homens e 33,2% mulheres. O problema tem se disseminado na Europa e até em países asiáticos como a China, onde a porcentagem era muito pequena, em torno de 2%, e agora, com o acelerado crescimento econômico e com o aumento da influência ocidental, ocorreu o impressionante aumento de 14% da incidência de doenças relacionadas à obesidade.
Atualmente, podemos discutir com mais propriedade assuntos relativos à cirurgia da obesidade, que até pouco tempo eram de conceitos pouco definidos. Em Buenos Aires, Argentina, de 4 a 8 de setembro de 2008, especialistas de todo o mundo se reuniram durante o Congresso Mundial da IFSO (Federação Internacional de Cirurgia da Obesidade), da qual orgulhosamente somos membro ativo. Assim, tivemos a grata satisfação de ver milhares de presentes discutirem com mais propriedade e base sobre a obesidade, atestando a imensa contribuição que a curva de aprendizado pode nos dar, trazendo assuntos até então polêmicos e agora muito mais definidos.
Podemos observar a imensa importância do trabalho médico em obesidade não ser vinculado apenas ao ato cirúrgico, e sim na atuação conjunta, com equipes multidisciplinares coesas, o que permite uma atuação em diversas especialidades no suporte ao emagrecimento, no pré-operatório e no acompanhamento constante de todas as intercorrências, em abordagens mais precoces e tecnicamente mais eficazes.
A outra questão polêmica levantada no evento, e que para nós nunca foi tão polêmica assim, é a utilização ou não do anel de silicone no pequeno estômago. Mesmo os mais ferrenhos defensores dessa prática de utilização do anel, já começam a advogar o seu uso seletivo e a grande maioria dos cirurgiões do planeta comunga com a nossa idéia inicial, de que mais importante do que o anel, na prevenção do reganho de peso é o acompanhamento rigoroso e multidisciplinar no pós-operatório, fazendo com que o paciente esteja mais vinculado aos profissionais, evitando os erros alimentares e até tornando as transgressões nutricionais proibitivas, o que vai garantir um emagrecimento saudável, eficaz e sustentado.
Na experiência do nosso serviço, o que temos observado em um pequenino grupo de pacientes é uma discreta diminuição da expectativa de emagrecimento em pacientes que durante a abordagem psicológica e nutricional caracterizam-se quase que em sua totalidade, erros alimentares, transgressões nutricionais e um fatal desleixo na manutenção de uma diária atividade física.
Outra importante contribuição deste histórico congresso é a comprovação de que os eventos críticos que podem estatisticamente acontecer nesta especialidade cirúrgica vêm diminuindo em todo o mundo, assim como a experiência que tem sido acumulada com a manipulação dessas desagradáveis complicações, com diagnósticos precisos e mais precoces que vêm contribuindo para uma considerável redução na morbimortalidade destes pacientes.
A escolha do tipo de procedimento cirúrgico ou endoscópico em cada grupo de obesos e estudos bem aplicados em obesos mórbidos e superobesos vêm reforçando a supremacia da escolha da gastroplastia com By Pass (FOBI) como um procedimento cirúrgico seguro que resolve a obesidade e suas comorbidades associadas, com eficácia e segurança técnica.
Para coroar as discussões, entramos pela seara da cirurgia para o diabetes e, nesta área em especial, estão os melhores e mais bem conduzidos estudos clínicos, não se tendo ainda um modelo melhor ou padrão ouro para esta condição. A cirurgia de FOBI (gastroplastia) e seus princípios básicos de exclusão duodenal e o By Pass, mesmo que discreto para os esperados efeitos no diabetes, vêm resolvendo as questões inerentes ao diabete do obeso e do super obeso. Continuamos buscando uma solução para o diabete tipo 2 e várias escolas e estudos clínicos vêm acontecendo. Com certeza, em breve, veremos a medicina e, em especial, a cirurgia, decisivamente contribuir para a melhoria das condições clínicas destes pacientes.
Enfim, a certeza que temos é que a cirurgia da obesidade passou pelos seus tempos mais heróicos; da curva de aprendizagem e suas conseqüências, para uma era de mais conclusões e mais definições. Com isso, os resultados, cada vez mais, tendem a ser extremamente positivos, facilitando a vida de pacientes obesos, sequelados pelas comorbidades, ameaçados pela complicada qualidade de vida e que agora descortinam uma esperança palpável de acesso a um procedimento cirúrgico cada vez mais seguro, de complicações mais presumíveis, com um tratamento cada vez mais precoce e otimizado.