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08/10/2007
Endoscopia Digestiva: do "zirkus" ao "chip".
Esse método tem se modernizado consideravelmente, sobretudo em fins do milênio, como conseqüência do avanço tecnológico que inclui a diminuição do calibre dos instrumentos, mas, sobretudo, a utilização da fibra óptica e, a seguir, o "chip", nos conduzindo a imagem de maior resolução, além da criação de novos acessórios endoscópicos que possibilitam atingirmos quase todo o tubo digestivo, realizando verdadeiras cirurgias, sem corte aparente.
Dr. Arnaldo
 

Decorria o ano de 1868, o circo era sinônimo de lazer e cultura. Apresentava-se na Alemanha, como principal atração daquela noite, o famoso "engolidor de espadas". Atento na platéia, em companhia dos seus filhos, o Dr. Kusmaul teve uma idéia brilhante: após o espetáculo, dirigiu-se aos camarins e convidou o artista a repetir aquele feito memorável em seu consultório, deglutindo nessa ocasião um tubo com diminuta lâmpada em sua extremidade. Sem prever o alcance daquele ato para o futuro da humanidade, o cientista entrava para os anais da história da medicina, realizando ali a primeira endoscopia gástrica "in vivo" do mundo.

Esse método tem se modernizado consideravelmente, sobretudo em fins do milênio, como conseqüência do avanço tecnológico que inclui a diminuição do calibre dos instrumentos, mas, sobretudo, a utilização da fibra óptica e, a seguir, o "chip", nos conduzindo a imagem de maior resolução, além da criação de novos acessórios endoscópicos que possibilitam atingirmos quase todo o tubo digestivo, realizando verdadeiras cirurgias, sem corte aparente.

A endoscopia alta nunca foi dolorosa, é raramente incômoda, considerando que alguns a ela se submetem sem sedação, por opção própria, embora o uso de medicamentos cada vez mais eficientes, aliados à monitoração, nos permita uma "anestesia" cada vez mais segura. Com o decorrer do tempo, portanto, a endoscopia deixou de ser inicialmente experimental, passou a diagnosticar, em seguida preventiva e, finalmente, terapêutica, através da cirurgia endoscópica, dividindo a gastroenterologia em duas eras: pré e pós-endoscopia.

Alguns exemplos de sua eficácia incluem prevenção; retirada de pólipos, detecção; biópsias e retiradas de câncer quando precoce, em estômago, segundo em incidência geral, ou coloretais; o quarto mais freqüente. Indivíduos a partir de certa idade, sobretudo se portadores de algumas doenças locais ou que apresentam antecedente familiar, devem se submeter periodicamente à pesquisa de tumores em fase inicial, quando a cura atinge a totalidade e descobrir lesões pré-malignas. Mesmo nos casos mais avançados, em caráter paliativo, a endoscopia também se apresenta como uma alternativa ao médico oncologista, oferecendo uma melhor qualidade de vida ao paciente, mediante cauterização e colocação de endopróteses.

Quanto à abordagem das vias biliares e pancreáticas, esse método possibilita avaliação e tratamento da pancreatite crônica e retirada de cálculos. Nas doenças denominadas ácido-pépticas (esofagites, gastrites e úlceras), nos permite o diagnóstico, presença ou não de agentes causais relacionados (hérnia hiatal, H.pylori, entre outras), resultados do tratamento aplicado e até a contenção de suas eventuais complicações hemorrágicas ou de estreitamento que impeçam a digestão dos alimentos.
Temos auxiliado no emagrecimento dos obesos, acompanhando a cirurgia bariátrica, através da colocação do "balão gástrico" temporário, mediante indicação, após avaliação criteriosa. Pacientes com demência senil, neurológicas ou com seqüelas graves, impedidos de alimentar-se satisfatoriamente são submetidos à gastrostomia endoscópica, evitando-se, portanto, a antiga conduta cirúrgica de alto risco, se considerarmos a presença de doenças associadas tão comuns nesse perfil de clientes.
Vale ressaltar que embora tenhamos abordado tantas moléstias, algumas graves, a maioria dos pacientes que chegam aos nossos consultórios apresenta sintomas apenas funcionais, alguns denominados psicossomáticos, resultantes, portanto, das tensões emocionais do dia-a-dia: competitividade no trabalho, conflitos nas relações pessoais, "status" econômico-financeiro, entre outros. Aliás, situações essas que, embora consideradas modernas, já haviam sido detectadas e previstas pelo filósofo Platão, lá pelos idos do ano 500 AC que escreveu:
“Nós ingerimos nossos conflitos e digerimos nossas emoções". Recomenda-se, entretanto, que apenas o seu médico ao ser visitado periodicamente estará apto a concluir tal diagnóstico após rigorosa avaliação e, quando necessário, solicitando os exames complementares objetivos, entre os quais se destaca a endoscopia, sob pena de subestimar patologias potencialmente catastróficas, cujo retardo na sua descoberta ou uso de tratamentos alternativos comprometerá definitivamente o seu tratamento e conseqüente piora do prognóstico, com evolução severa e às vezes fatal.

Em resumo, poderia definir a endoscopia digestiva atual como: "a arte na ciência médica capaz de diagnosticar e tratar doenças que embora suspeitadas se encontrem invisíveis aos nossos olhos e não palpáveis pelas mãos mais hábeis". E o espetáculo continua.

Legenda:
ARNALDO MOTTA FILHO – CRM - 5031
COORDENADOR DO SERVIÇO DE ENDOSCOPIA DO HOSPITAL ESPANHOL
TITULAR ESPECIALISTA EM ENDOSCOPIA DIGESTIVA.
MEMBRO DA AMERICAN SOCIETY FOR GI ENDOSCOPY

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